07 de Março de 2026

"Juros poderiam estar entre 10,5% e 11% ao ano", diz André Roncaglia


crédito: Vicente Nunes/CB/D.A Press

Vila Nova de Gaia, Portugal — Voz cada vez mais influente nas discussões econômicas do país, o professor André Roncaglia, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesf), afirma que o Banco Central tem agido de forma política e, por isso, atrasado o processo de redução da taxa básica de juros (Selic), de 13,75% ao ano. Na avaliação dele, o presidente da instituição, Roberto Campos Neto, que votou no candidato derrotado nas últimas eleições, tem manejado os indicadores econômicos de acordo com a conveniência dele para justificar o excesso de conservadorismo do Comitê de Política Monetária (Copom). “Na minha opinião, os juros poderiam estar, hoje, entre 10,5% e 11% anuais”, diz.

Roncaglia, que prevê crescimento econômico entre 2% e 2,5% neste ano, ressalta que ninguém espera um cavalo de pau na política monetária, de forma a minar a confiança no Banco Central. Para ele, no entanto, a autoridade monetária deveria se sensibilizar ante os mais frequentes indicadores, que apontam acelerado processo de desinflação no país. O Índice Geral de Preços — Disponibilidade Interna (IGP-DI) de maio teve queda de 2,33%, a maior para o mês desde 1951, na era Vargas. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como parâmetro para as metas de inflação, subiu apenas 0,23% no mês passado, abaixo de todas as estimativas. “Os preços estão com deflação no atacado e isso está chegando aos consumidores”, ressalta.

Para o professor, se os juros estivessem em um patamar mais civilizado, o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre do ano teria sido muito superior ao avanço de 1,9% computado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ele acrescenta que os investimentos de empresas e o consumo das famílias estão travados pela falta de um horizonte menos hostil e pelo elevado nível de endividamento. “A partir do momento em que os juros caírem, veremos produção e consumo mais fortes. Na minha visão, a principal restrição à atividade econômica hoje é, essencialmente, a taxa de juros, que está num patamar profundamente desalinhado com o que deveria estar internamente e, certamente, com o resto do mundo”, reforça.

Na avaliação de Roncaglia, o mercado financeiro começa a admitir que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não fará nenhuma mudança radical na economia. Por isso, o otimismo que levou o dólar para abaixo de R$ 4,90, a Bolsa de Valores para os 117 mil pontos e os juros futuros aos menores níveis em meses. “Acho que o mercado está começando a compreender que há benefícios em se olhar também para a parte de baixo da pirâmide social, para a distribuição de renda que garante consumo, a circulação de dinheiro. Não que se sensibilize com isso. Está tolerando e, ao tolerar, diminui a pressão, o constrangimento que se faz sobre o governo”, diz.

Outro ponto importante, segundo ele, foi a forma como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, lidou com a questão do marco fiscal, que agradou bastante os agentes financeiros, para desespero da base do governo, que gostaria que a gestão de Lula fosse mais para o confronto com a banca e a Faria Lima. “Para mim, o arrocho decorrente do novo arcabouço fiscal é excessivo, mas foi o aprovado”, afirma ele, que vê um potencial enorme de crescimento para o Brasil se a reforma tributária sair do papel. A seguir, os principais trechos da entrevista que o economista concedeu ao Correio durante participação no 7ª Congresso Luso-Brasileiro de Auditores Fiscais.

Temos um processo de desinflação que está muito acelerado por uma conjunção de fatores que, no contexto da pandemia e, depois, da guerra na Ucrânia, estavam empurrando a inflação para cima. Conforme as cadeias produtivas foram se reorganizando, os problemas de transporte marítimo internacional se regularizaram, questões portuárias, tudo o que a gente chama de gargalo produtivo foi sendo resolvido. Essas pressões foram baixando. No contexto da própria guerra da Ucrânia, os preços da energia também começaram a ceder, o barril do petróleo começou a cair. Todos esses dados puxam o índice geral de preços, que é muito dependente do preço no atacado, que chamamos de preço ao produtor, para baixo. Tudo está caindo. O IGP-DI teve uma variação negativa. Não é só que a inflação desacelerou, está negativa em 5,40% em 12 meses, evidenciando que as pressões de preços estão sendo reduzidas. Obviamente, não sabemos qual é a sensibilidade do Banco Central a esses indicadores. Por enquanto, a sensibilidade é zero. Mas a evidência é muito clara no sentido de que a economia está passando por um processo acelerado de desinflação.

A despressurização dos preços ao produtor está chegando aos consumidores, como era esperado, como ocorre normalmente. O que vemos é uma desaceleração importante. Na minha visão, esses dados justificam sensibilizar o Banco Central para o início do afrouxamento monetário. O Banco Central tem de fazer isso antes de o Boletim Focus mostrar que a Faria Lima se convenceu disso. O BC tem a capacidade de tomar iniciativas e começar o corte de juros para deixar a economia funcionar de maneira mais oxigenada, em consonância do que que vem ocorrendo no resto do mundo. Há indicadores suficientes mostrando uma desinflação avançada, o que, obviamente, indica que o BC pode agir, nada muito abrupto, com intensidade não muito rápida.

Certamente, porque temos vários sinais de desaquecimento da atividade em termos setoriais e na economia como um todo, muito embora tenha havido um repique do PIB no primeiro trimestre do ano por conta do auxílio Brasil, que foi pago no último ano da gestão Bolsonaro, e de outros pacotes fiscais que foram lançados com a PEC da Transição. Isso está dando alguma vida para a economia, mas quase um ano de taxa de juros muito elevada vai paralisando a atividade produtiva. O emprego tende a começar a cair de maneira acelerada e, quando isso acontecer, vai ser muito difícil reverter. Demora muito tempo. Então, a combinação de juro muito alto com uma economia que vai se desacelerando pressiona fundamentalmente as finanças das empresas, que já estão paralisando atividades, pedindo recuperação judicial. Temos registrado recordes de pedidos de recuperação judicial, de falências. Isso mostra que o Banco Central está errando na mão por um preciosismo que é teórico, exclusivamente teórico, não encontra respaldo na realidade, como vários indicadores vêm mostrando.

Eu acho muito difícil separar o político do que é o técnico, como o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, vem tentando fazendo. Não à toa, se chama política monetária. Existe um conteúdo político que é absolutamente indissociável desse processo. E o fato de ele ter tido, já como presidente de um Banco Central autônomo, uma atuação política muito clara, muito enviesada na direção do candidato que perdeu as eleições, salienta esse aspecto político. Mas existem mais coisas que revelam esse viés político da atuação dele.

A primeira delas é a estratégia retórica do presidente do Banco Central, que vem usando os indicadores conforme a conveniência dele, para defender a intransigência restritiva que o Comitê de Política Monetária vem aplicando nos juros. O segundo ponto, e eu gosto de evidenciar essas contradições, é que, quando se critica o presidente Roberto Campos Neto pelo fato de o BC manter uma política monetária restritiva, dizem que ele é só mais um nome no Copom. Quando o presidente Lula indica, no caso, o Gabriel Galípolo para uma diretoria do Banco Central, que é uma em nove, o argumento é de que ele vai alterar a política monetária. Ora, se o Roberto Campos Neto é só uma pessoa, por que o Galípolo, que será só um diretor, iria alterar a política monetária? Então, vejo nessas contradições o viés político que está marcando o posicionamento do Banco Central.

Acho que os juros, numa trajetória suave, sem dar cavalo de pau em transatlântico, numa medida gradual, poderiam estar pelo menos 3 pontos percentuais abaixo dos 13,75% anuais que temos hoje, ou seja, algo entre 10,5% e 11% ao ano, numa trajetória para que se chegue a taxas reais em torno de 3% a 4%. O meu receio é que, quando o Banco Central for iniciar o desaperto, que tenha de fazê-lo num ritmo muito acelerado. Acho isso tão ruim quanto manter a taxa de juros muito elevada.

Fonte: correiobraziliense

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