07 de Março de 2026

Aquecimento global tem maior aceleração desde 1880


Cientistas determinaram com precisão estatística que o aquecimento global está acelerando. O trabalho, conduzido por cientistas do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK), na Alemanha, e publicado ontem na revista Geophysical Research Letters, revela que a taxa de aumento da temperatura média da Terra quase dobrou nos últimos dez anos em comparação ao ritmo observado desde a década de 1970.

De acordo com o levantamento, entre 1970 e 2015 o aquecimento ocorreu a uma taxa média de pouco menos de 0,2°C por década. Já nos últimos dez anos, o ritmo estimado chegou a cerca de 0,35°C por década. Segundo a publicação, essa é a taxa mais alta registrada em qualquer período desde o início das medições instrumentais globais, em 1880. Para o estudo, os pesquisadores analisaram cinco dos principais conjuntos de dados globais de temperatura: Nasa, Noaa, HadCRUT, Berkeley Earth e ERA5.

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"Agora podemos demonstrar uma forte e estatisticamente significativa aceleração do aquecimento global desde cerca de 2015", revela Grant Foster, especialista em estatística dos Estados Unidos e coautor do estudo. Segundo os cientistas, estudos anteriores já haviam sugerido a possibilidade de intensificação do fenômeno, mas a incerteza ainda era grande. Para reduzir essa margem de erro, os pesquisadores removeram das análises os efeitos de fenômenos naturais que podem distorcer temporariamente os dados de temperatura.

"Filtramos as influências naturais conhecidas nos dados observacionais, de modo que o 'ruído' seja reduzido, tornando o sinal subjacente de aquecimento a longo prazo mais claramente visível", acrescentou Foster.

Entre os fatores que poderiam interferir nas pesquisas estão eventos como El Niño, erupções vulcânicas e variações na atividade solar. Esses fenômenos podem provocar flutuações de curto prazo na temperatura global e, em alguns casos, mascarar mudanças mais duradouras no ritmo de aquecimento do planeta.

"Os dados ajustados mostram uma aceleração do aquecimento global desde 2015 com uma certeza estatística superior a 98%, consistente em todos os conjuntos de dados examinados e independente do método de análise escolhido", explica Stefan Rahmstorf, pesquisador do PIK e principal autor do estudo.

A análise também indica que os primeiros sinais dessa aceleração começaram a surgir por volta de 2013 ou 2014. Para verificar a mudança na tendência, os cientistas aplicaram duas abordagens estatísticas diferentes: uma análise de tendência quadrática e um modelo linear por partes capaz de identificar o momento em que ocorre alteração na taxa de aquecimento.

Mesmo após a correção de efeitos naturais, como o El Niño e o máximo solar, os anos de 2023 e 2024 — considerados excepcionalmente quentes — continuam figurando como os dois mais quentes desde o início dos registros históricos. Os ajustes reduzem levemente as temperaturas estimadas para esses anos, mas não alteram a tendência geral de aquecimento.

Para o climatologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Francisco Eliseu Aquino, o ponto mais importante do artigo é que os pesquisadores analisam as condições de variabilidade natural do clima da Terra. "Ao observar os dados ao longo de 125 anos, eles mostram que, a partir da década de 1970, o aumento da temperatura global passa a se intensificar progressivamente. E, exatamente na última década ou década e meia, esse aumento se torna ainda mais intenso. Na prática, isso quer dizer que as atividades humanas vêm contribuindo para aumentar a concentração de gases na atmosfera. Esse aumento é detectável nos dados e amplifica o aquecimento global."

Motivos incertos

O estudo não investiga diretamente as causas específicas dessa aceleração recente. Ainda assim, os autores afirmam que os modelos climáticos indicam que uma intensificação gradual do aquecimento está dentro das projeções previstas pela ciência do clima.

Conforme Flávia Martinelli, especialista em mudanças climáticas do WWF-Brasil, a humanidade está muito perto de atingir limites planetários muito difíceis de reverter, chamados de pontos de não retorno, como o aquecimento dos oceanos com mudanças de correntes marítimas e morte de centenas de espécies de corais. "Isso afeta a dinâmica dos ecossistemas marinhos e costeiros. Há muitas outras consequências que vivenciamos diariamente: maior dificuldade de prevenir e conter incêndios, secas, deslizamentos e enchentes, perdas de vidas humanas, perdas econômicas e patrimoniais, aumento de desigualdade social, declínio da biodiversidade, descaracterização de biomas inteiros. Todas essas consequências desencadeiam muitas outras, caracterizando uma cadeia de destruição preocupante."

Os pesquisadores alertam que se a velocidade observada na última década se mantiver, o limite de 1,5 °C de aquecimento acima dos níveis pré-industriais, estabelecido pelo Acordo de Paris, pode ser deixado para trás antes de 2030. "A rapidez com que a Terra continuará a aquecer depende, em última análise, da rapidez com que reduzirmos a zero as emissões globais de CO2 provenientes de combustíveis fósseis", frisa Rahmstorf.

 

"Esse aquecimento é o disparador de muitas das crises globais que estamos vendo, entre elas principalmente as dos eventos extremos. Conforme aceleramos o aquecimento do globo, infelizmente precisamos dizer que vamos acelerar também a frequência — e talvez a intensidade — desses acontecimentos. Isso inclui chuvas extremas, como as que têm ocorrido agora em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, ou como as que assolaram o Rio Grande do Sul dois anos atrás. Situações como essas serão cada vez mais frequentes. O estudo 'Brasil em Transformação', produzido pela Fundação Grupo Boticário com a Unifesp, mostrou que, apenas olhando para a questão das chuvas extremas, mais do que dobramos, nos últimos 20 anos, o número de desastres relacionados a esse fenômeno."

Ronaldo Christofoletti, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) 

Fonte: correiobraziliense

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