O Chile empossou, nesta quarta-feira (11/3), o primeiro presidente ultraconservador desde 1990. O advogado de extrema-direita José Antonio Kast, 60 anos, assumiu o Palácio de La Moneda determinado a instaurar um "governo de emergência" para combater a violência e a imigração ilegal. O novo chefe de Estado tomou o juramento dos 24 ministros que compõem o seu gabinete — dois deles foram advogados do general Augusto Pinochet, responsável por comandar um aparato repressivo que deixou mais de 3.200 mortos e desaparecidos. A cerimônia de posse contou com os presidentes Javier Milei (Argentina), Daniel Noboa (Equador) e Rodrigo Paz (Bolívia), além da líder opositora e Nobel da Paz venezuelana María Corina Machado. Como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desistiu da viagem, o Brasil esteve representado pelo chanceler Mauro Vieira. Ao fim da cerimônia de posse, Kast cumprimentou simpatizantes enquanto desfilava a bordo de um Ford Galaxie preto conversível, carro oferecido pela rainha Elizabeth II, do Reino Unido, em 1968.
Marcelo Mella, cientista político e professor do Departamento de Estudos Políticos da Universidad de Santiago de Chile, afirmou ao Correio que se espera, para os próximos dias, o anúncio de Kast sobre o roteiro para enfrentar os dois compromissos principais de campanha: o combate à violência criminal e o controle da imigração ilegal. "Nesse sentido, deve existir uma mudança de discurso, desde uma condição de candidato desafiante ao chefe do Poder Executivo para adotar uma retórica que inclua propostas para resolver problemas demonstrados como complexos e de difícil resolução para o país", explicou.
Para o especialista, Kast reforçará os aparatos de inteligência no Chile, incluindo os mecanismos de investigação para a detecção de fraudes bancárias e lavagem de dinheiro. "O presidente também precisará fortalecer a política carcerária e a instituição Gendarmería (polícia), que aparece fortemente tensionada pelo aumento, nos últimos anos, da quantidade de pessoas privadas de liberdade", observou.
Em relação à política migratória, Mella acredita que o novo chefe de Estado buscará uma fórmula para viabilizar o corredor para o encaminhamento de pessoas vivendo no Chile em situação irregular. "Até o momento, o anúncio do chamado 'corredor humanitário' não surtiu êxito, pois as conversas com os governos do Peru e do Equador não resultaram emuma coordenação que torne possível devolver os migrantes à Venezuela", disse. O professor chileno lembrou que a líder opositora venezuelana María Corina Machado marcou presença na posse de Kast, sinalizando que as condições na Venezuela mudaram com a captura de Nicolás Maduro e que o retorno dos migrantes ao país é seguro e necessário para modificar o regime.
Expulsão sumária
O ultradireitista pretende apresentar um decreto para tramitar, em regime de urgência, um projeto de lei que transforma em crime a entrada irregular de imigrantes no Chile e facilita a expulsão sumária dos estrangeiros ilegais. Ao analisar o gabinete de Kast, Mella disse ver um grande número de independentes e uma representação mínima de partidos da direita, o que sugere a alta complexidade de acordos costurados entre Executivo e Legislativo. "Na história política chilena, desde o começo do século 20, os governos são de coalizão, que utilizam a nomeação de ministros como mecanismo para o controle dos custos de negociação no Congresso", destacou o cientista político.
"Kast é o chefe de governo que se posiciona mais à direita desde a ditadura do general Augusto Pinochet. O presidente deverá buscar uma fórmula de equilíbrio entre uma liderança mais ideológica e partidária e uma presidente capaz de construir acordos transversais com um maior nível de pragmatismo. Por ter respaldo minoritário no Congresso, a fórmula de uma liderança mais radical confina ao novo chefe de governo a uma posição defensiva, com uma grande incerteza de sua capacidade de produção legislativa. Se Kast optar por uma presença mais pragmática, isso aumentará a possibilidade de construir relações com a maioria para projetos de lei. É claro, essa estratégia tensionaria a ala mais radicalizada do governo, integrada pelo Partido Nacional Libertário e pelo Partido Social Cristão."
Marcelo Mella, cientista político e professor do Departamento de Estudos Políticos da Universidad de Santiago de Chile
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