12 de Março de 2026

80% dos lares brasileiros estão com dívidas


Enquanto as contas chegam, o brasileiro se afunda cada vez mais nas dívidas que parecem virar uma bola de neve. Este cenário ficou mais frequente nos lares do país em um cenário de juros altos e menor poder aquisitivo, como atesta o levantamento mais recente da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgado ontem. De acordo com o estudo, quatro em cada cinco famílias tinham alguma dívida no último mês de fevereiro, o que representa o maior nível desde o início da série histórica, em 2010.

O levantamento realizado mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que em fevereiro de 2026, 80,2% desses grupos possuíam alguma dívida, o que indica um aumento de 3,8% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Os dados divulgados ontem ainda revelam que a inadimplência voltou a subir em fevereiro, após três meses de queda. Nesse período, a taxa subiu para 29,6%, o que, na visão do presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, é um impacto direto do nível elevado da taxa de juros no país. Desde junho de 2025, a Selic permanece no maior nível em quase 20 anos, a 15% ao ano (a.a.).

"Embora o crédito seja um motor essencial para o consumo, o custo do dinheiro permanece proibitivo, criando um ciclo perigoso em que o aumento das dívidas é potencializado por juros altos que dificultam a amortização. Sem alívio consistente nos juros, a capacidade das famílias de limpar seus cadastros fica seriamente comprometida, o que acaba por frear o dinamismo do nosso comércio e serviços", destaca Tadros. 

Para o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, embora o endividamento recorde assuste, o que preocupa mais a entidade é o nível elevado da inadimplência, que representa a parcela da população endividada que não consegue honrar com esses compromissos financeiros e ficam com o nome "sujo". 

De acordo com a pesquisa, o tempo médio de atraso dos pagamentos subiu para 65,1 meses, o que representa o nível mais alto desde o fim de 2024. Além disso, a parcela de consumidores inadimplentes por mais de 90 dias avançou para 49,5%, evidenciando que os atrasos estão cada vez mais longos. "O aumento do endividamento preocupa, não costumamos ver este nível, mas o crescimento da inadimplência preocupa ainda mais porque é mais um sintoma do estrago que este longo período de aperto monetário com a alta Selic provoca no orçamento das famílias brasileiras", analisa Bentes.

Insegurança

O caminhoneiro Kleiber Vieira, de 52 anos, é um exemplo de como a insegurança também pode gerar inadimplência. Ele conta que ficou com o nome "sujo" após ter o veículo roubado quando ainda faltavam 11 parcelas de R$ 6 mil para terminar o financiamento. Segundo ele, o caminhão tinha sido adquirido por meio do antigo programa Pró-Caminhoneiro. Após o roubo, afirmou que não conseguiu renegociar o débito com a instituição financeira responsável pelo contrato.

"Essa dívida se tornou impagável. Era um financiamento ligado a um programa para caminhoneiros e não houve negociação, apenas a cobrança de juros sobre juros. Eu devia cerca de R$ 66 mil e fiz propostas para pagar em 12 ou 24 vezes, mas não aceitaram", disse. De acordo com o motorista de caminhão, o valor da dívida aumentou ao longo dos anos. "Hoje ela já passa de R$ 300 mil, então se tornou impossível pagar nas minhas condições", afirmou.

Vieira também relata impactos no dia a dia de trabalho. "Por causa dessa dívida, eu sofro bloqueio judicial. Isso me prejudica porque trabalho com frete e recebo pagamentos em conta. Hoje não posso mais usar a minha conta bancária e tenho que utilizar a conta dos meus filhos", disse. O caminhoneiro afirma que até o momento do roubo estava com as parcelas em dia. "Em dezembro de 2018 aconteceu o roubo. Até então eu estava pagando normalmente, mas naquele mês já não consegui pagar, porque também retiraram o dinheiro que eu tinha na conta", relatou.

Organização

Para o presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (Abefin), Reinaldo Domingos, o crescimento do endividamento das famílias reflete um cenário que já pode ser caracterizado como uma "epidemia de inadimplência" no país. "Esse movimento ocorre principalmente por um descompasso cada vez maior entre renda e custo de vida. Muitos brasileiros têm a sensação de que os salários permanecem os mesmos, enquanto os preços de itens essenciais, serviços e até do próprio crédito aumentam gradualmente", comenta.

Diante de uma pressão cada vez maior no orçamento, o presidente da associação explica que o crédito acaba sendo utilizado como uma solução imediata para manter o padrão de consumo, ou até mesmo para cobrir despesas básicas. "O problema é que grande parte dessas operações ocorre em modalidades com juros elevados, como cartão de crédito e empréstimos pessoais, o que acelera o processo de endividamento e aumenta o risco de inadimplência", acrescenta Domingos. 

A pesquisa da CNC mostra ainda que o avanço do endividamento atinge todas as faixas de renda da população. No último mês de fevereiro foi impulsionado majoritariamente pelas famílias de maior renda, que recebem acima de 5 salários mínimos. Inclusive entre as com renda superior a 10 salários mínimos, o endividamento saltou de 3,8% em relação ao ano anterior. Já na faixa dos mais pobres, onde a inadimplência castiga mais, o percentual de contas em atraso manteve-se elevado em 38,9%.

A planejadora financeira Gabriela Vale alerta para os riscos antes de assumir uma nova dívida. Segundo ela, é fundamental que o consumidor avalie três pontos principais: a real necessidade da despesa, a capacidade de pagamento sem comprometer o orçamento mensal e o custo efetivo do crédito. "A recomendação é que as parcelas não comprometam de forma excessiva a renda e que o consumidor tenha clareza de que toda decisão de crédito representa antecipação de consumo", ressalta a especialista.

"Importante aconselhar que interromper o parcelamento de despesas cotidianas é um passo essencial para recuperar o controle financeiro", pontua Vale.

Estagiário sob a supervisão de Edla Lula

 

Fonte: correiobraziliense

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