12 de Março de 2026

'Estou preparando o discurso' para o Oscar: diretor de elenco de 'O Agente Secreto' explica por que acredita na vitória do Brasil


Gabriel Domingues está tendo sonhos de que vai ganhar o Oscar. Ele é o diretor de elenco de O Agente Secreto, responsável pela escalação não só de Wagner Moura, que também concorre à estatueta dourada, mas também de novos fenômenos, como Tânia Maria, uma costureira que começou a atuar aos 72 anos e hoje gera fascínio entre críticos estrangeiros.

Desde que o Oscar foi criado, há 98 anos, esta será a primeira vez que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas premiará a direção de elenco de um filme — até então, só atores, atrizes e coadjuvantes eram reconhecidos.

A concorrência é grande: nesta categoria, O Agente Secreto disputa com Pecadores, estrelado por Michael B. Jordan; Uma Batalha Após a Outra, aposta do ano de Leonardo DiCaprio; Marty Supreme, com Timothée Chalamet; e Hamnet, que tem Paul Mescal no papel de um jovem William Shakespeare.

Mas Domingues está confiante. "Acho muito que vou ganhar", ele diz, em entrevista por videoconferência à BBC News Brasil, antes de embarcar para Los Angeles para a cerimônia de entrega do prêmio, neste domingo (15/2).

"Estou preparando o discurso. A cada dia abro o Word e vou fazendo uma revisão baseada nos meus sonhos."

Parte do entusiasmo está ligada às previsões de veículos especializados na cobertura do prêmio. Na disputa de Melhor Direção de Elenco, O Agente Secreto já apareceu na segunda colocação na lista da Variety, uma das revistas mais relevantes de cinema nos Estados Unidos.

O longa-metragem brasileiro está atrás de Pecadores, que vê nos vampiros uma metáfora do racismo no sul dos Estados Unidos nos anos 1930. O filme tem se destacado por ter Michael B. Jordan no papel de dois personagens ao mesmo tempo, já que ele interpreta irmãos gêmeos.

Nos chamados "anonymous ballots" — as tradicionais entrevistas em que integrantes da Academia revelam seus votos sob anonimato —, Pecadores vem se destacando também na categoria de Melhor Ator, assim como Marty Supreme.

Gabriel Domingues, no entanto, vê na diversidade de gênero, raça e origem geográfica do elenco de O Agente Secreto um fator que diferencia o longa-metragem brasileiro dos demais, filmados em geral nos Estados Unidos ou na Inglaterra.

Em outras palavras, na visão não só do diretor, mas também da crítica, o filme funciona como um caleidoscópio dos muitos "países" que coexistem dentro do Brasil.

Essa diversidade, diz ele, se cristaliza justamente no elenco, com seus sotaques, cabelos, olhos e tons de pele que não se limitam à cor preta ou branca, mas exploram as gradações entre elas — uma discussão conhecida como colorismo, cada vez mais presente na academia, mas ainda pouco explorada em Hollywood.

"Tem um nível de complexidade na escalação que, para os brasileiros, já é difícil de entender. Lá fora, ficam muito impressionados, porque não conhecem o Brasil em sua totalidade. Eles têm uma ideia de que 'o Brasil é assim', 'o brasileiro é assim'. Não sabem que o Brasil é mil coisas diferentes. Eles ficam surpresos vendo este filme porque não entendem isso racionalmente, mas sentem essa potência."

Nascido e criado no Rio de Janeiro, Domingues diz ter sentido essa ignorância do público estrangeiro, sobretudo americano, na viagem que fez a Los Angeles em janeiro para participar de encontros com os outros indicados.

"Os garçons no almoço do Oscar eram mexicanos. Eles falavam com todo mundo em inglês, aí chegava na minha mesa e falavam em espanhol, me chamavam de primo. Eles se confundem muito", conta. "Mas sinto uma curiosidade, um interesse e um respeito, porque eles viram que a gente fez Ainda Estou Aqui no ano passado e O Agente Secreto neste ano."

Outro diferencial de O Agente Secreto é a aposta na coletividade, ele afirma, explicando que, depois de Wagner Moura, os coadjuvantes têm, em sua maioria, quase o mesmo tempo de tela para brilhar.

Esse é o motivo pelo qual, diz, é difícil citar um ou dois artistas que tenham se destacado, embora reconheça a popularidade conquistada por Tânia Maria — em uma brincadeira que a projetou para o mundo, o New York Times destacou a naturalidade com que a atriz fuma diante da câmera e a "premiou" na categoria "best cigarette acting", algo como melhor atuação com cigarro.

A franqueza e o alto astral de sua personagem, Sebastiana, mesmo durante a ditadura militar — período em que o filme se passa —, despertaram simpatia do público.

Os espectadores ainda se encantaram com sua trajetória como costureira em Parelhas, no Rio Grande do Norte, até ser descoberta pela equipe do diretor Kleber Mendonça Filho durante as filmagens de Bacurau, feito antes de O Agente Secreto.

"É claro que, quando você vê alguém com esse nível de originalidade e autenticidade da Tânia, chama atenção", diz Domingues. "Mas, quando estava nos Estados Unidos, toda hora alguém vinha falar comigo e dizia que seu personagem favorito era um ou outro. Cada um se apega a uma figura. É difícil avaliar em uma escala hierárquica quem chama mais atenção."

O diretor conta que, em Los Angeles, teve a oportunidade de dar uma aula magna para jovens atores a convite do Screen Actors Guild, o sindicato dos atores americanos, e notou as diferenças que separam os profissionais americanos dos brasileiros — para o bem e para o mal.

Os artistas lhe apresentaram uma cena, e ele diz ter tido dificuldade para avaliar o trabalho não só pelas barreiras linguísticas e estilísticas, mas também por não ter conseguido "enxergar uma particularidade, uma verdade própria de cada ator".

Ele explica: "Lá o nível de educação artística e dramática é muito mais alto, porque eles têm milhões de faculdades e escolas de teatro e cinema. Têm uma boa técnica, mais do que no Brasil, mas têm técnica demais, e isso acaba nivelando e deixando tudo indistinguível".

Essa característica, avalia Domingues, ultrapassa a sala de aula e, de certa forma, também se projeta nos filmes que disputam o Oscar, diferentemente do concorrente brasileiro, com um elenco formado por "um ator que vem do circo, outro do teatro, outra que é costureira, outro que fez 50 novelas".

"Pecadores tem muito mais atores profissionais do que O Agente Secreto. Não é que nossos atores não sejam gabaritados, mas eles têm trajetórias muito diferentes e específicas", ele diz. "Os outros filmes não surpreendem nesse quesito. É óbvio que Paul Mescal e Jessie Buckley são geniais. Aquele monte de ator britânico fazendo Shakespeare é óbvio que vai ser bom, mas não surpreende como a gente."

Ao ser questionado se os atores brasileiros ainda sofrem com maneirismos de uma atuação considerada exagerada — crítica recorrente na imprensa especializada, associada à dramaturgia do teatro e das telenovelas —, Domingues refuta a ideia.

Aos 36 anos, ele diz que, desde que começou a trabalhar, há pouco mais de uma década, essa página já havia sido virada. "Essa crítica é antiga, de um momento em que o cinema brasileiro não tinha uma produção tão diversa e profunda como hoje. É óbvio, a novela é uma constante muito estável e presente na cultura brasileira", ele diz.

"Mas a gente sempre teve filmes com uma interpretação que vai para um realismo que não está nem um pouco aquém do trabalho dos atores norte-americanos em Hollywood", acrescenta.

A indicação em anos consecutivos de Fernanda Torres e Wagner Moura à maior láurea do cinema é, em sua visão, uma evidência da capacidade dos artistas do Brasil.

Suas trajetórias, aliás, são a prova de que os brasileiros não se restringem mais à televisão — Moura fez apenas duas novelas em mais de 30 anos de carreira, e Torres abandonou os folhetins ainda no fim dos anos 1980, depois de fazer Selva de Pedra, da Globo, e não se encontrar no formato.

"A novela é básica, né? Os atores precisam dizer muita coisa. É muito calcado na palavra e no texto. Os personagens precisam comentar tudo, dizer o que sentem, enquanto no cinema a gente tem uma tradição de linguagem de corpo, de emoção, que é muito sólida."

Um Oscar para direção de elenco de O Agente Secreto, por fim, poderia "referendar a qualidade técnica dos nossos atores", afirma Domingues. "Seria um prêmio para mim, que escolhi os atores, mas também para todos os que estavam lá representando e fazendo um bom trabalho."

Fonte: correiobraziliense

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