15 de Junho de 2026

Modelo chileno de baterias renováveis pode inspirar o Brasil


Santiago do Chile — Em um momento em que os cortes obrigatórios na geração eólica e solar se consolidam como uma das principais preocupações do setor elétrico brasileiro, a entrada em operação de um grande sistema de armazenamento de energia no Chile surge como um exemplo prático de uma solução que começa a ganhar espaço no debate regulatório e empresarial no Brasil.

A EDP iniciou a operação de seu primeiro sistema de armazenamento por baterias na América do Sul, integrado ao Parque Eólico Punta de Talca, na região de Ovalle, no norte chileno. Com investimento de US$ 44 milhões e capacidade instalada de 240 MWh, o empreendimento foi concebido para enfrentar um desafio cada vez mais comum em sistemas com elevada participação de fontes renováveis, a incapacidade de absorver toda a energia produzida em determinados momentos.

Conhecido como curtailment, o fenômeno ocorre quando usinas eólicas e solares precisam reduzir sua geração por falta de demanda, restrições de transmissão ou limitações operacionais da rede. Nesses casos, energia limpa disponível deixa de ser aproveitada. A proposta das baterias é simples: armazenar a eletricidade produzida em momentos de excesso de oferta para liberá-la posteriormente, quando o consumo aumenta ou quando o sistema necessita de suporte adicional.

"O início da operação do nosso primeiro projeto de baterias na América do Sul representa um marco estratégico para a EDP. As baterias têm um papel fundamental para lidar com os excessos de produção renovável e, ao mesmo tempo, garantir segurança ao sistema elétrico por meio de uma resposta rápida de potência", afirmou João Brito Martins, CEO da EDP na América do Sul.

Segundo o executivo, o projeto inaugura uma nova etapa para a companhia na região. "Depois de construirmos nosso primeiro parque eólico no Chile, iniciamos agora uma caminhada no armazenamento de energia. Estamos falando de um sistema renovável, seguro e flexível, características que serão cada vez mais importantes para a transição energética."

O empreendimento integra um complexo que recebeu cerca de US$ 164 milhões em investimentos. A primeira etapa foi o parque eólico de 83 MW, inaugurado em 2024, seguida agora pela instalação das baterias. Para a EDP, a expansão das renováveis exige uma nova camada de infraestrutura capaz de equilibrar geração e consumo em tempo real. "Hoje, a transição energética não passa apenas por solar e eólica. As baterias se tornaram um elemento central desse processo", afirmou Ricardo Ferraz, diretor-executivo de Engenharia e Construção para a América do Sul da companhia.

De acordo com ele, o parque possui capacidade para abastecer cerca de 95 mil residências e evitar a emissão de aproximadamente 140 mil toneladas de CO2 por ano. Já o sistema de armazenamento foi projetado para ampliar a flexibilidade e a confiabilidade da rede. "Quando existe excesso de geração e falta de demanda, podemos carregar as baterias e devolver essa energia ao sistema nos momentos em que ela é necessária. Esse é o grande papel do armazenamento", disse o executivo.

O crescimento acelerado das fontes renováveis tem criado desafios semelhantes em diversos mercados. Nesse contexto, a experiência chilena ganha relevância para o Brasil, onde o avanço da geração distribuída e das fontes eólica e solar, especialmente no Nordeste, tem tornado os cortes obrigatórios de geração cada vez mais frequentes.

"Chile e Brasil convivem com problemas muito parecidos", afirmou Luís Barros, diretor-executivo de Geração Renovável da EDP. Segundo ele, uma das principais dificuldades dos sistemas elétricos com elevada participação de renováveis é a limitação da infraestrutura para transportar toda a energia produzida. "Em muitos momentos geramos energia, mas não existe capacidade suficiente para transportá-la até os centros de consumo. Isso leva ao desperdício de energia e cria distorções nos preços do mercado", explicou.

O executivo observou que a situação brasileira se tornou mais evidente a partir de 2023, com o aumento dos cortes de geração renovável por limitações na transmissão. "Há uma grande concentração de produção eólica e solar no Nordeste, enquanto boa parte do consumo está no Sudeste. É um desafio muito semelhante ao que observamos no Chile."

Conforme dados do relatório "Curtailment 2025: retrospectiva e projeção", da Volt Robotics, cerca de 20,6% de toda a geração solar e eólica disponível no Brasil foi desperdiçada em 2025 devido a restrições operacionais e limitações da rede de transmissão. Em termos financeiros, as perdas superaram R$ 6 bilhões. Na avaliação de Barros, a expansão das linhas de transmissão continuará sendo necessária, mas não será suficiente para resolver o problema.

"Os projetos de rede levam muitos anos para serem implementados. O armazenamento oferece flexibilidade operacional e reduz a necessidade de ampliar a infraestrutura apenas para atender algumas horas de excesso de geração ao longo do dia", afirmou. Ele destacou que o desafio tende a crescer com o avanço da geração solar. "Quando existe excesso de produção, especialmente em horários de forte geração solar, uma usina térmica não resolve tudo. As baterias são uma das peças desse conjunto de soluções que inclui transmissão, hidrelétricas, redes inteligentes e outras tecnologias."

Para o executivo, o armazenamento será um componente essencial da transição energética. "Se soluções como essa não forem implementadas, os problemas tendem a se agravar à medida que cresce a participação das renováveis. A transição energética precisa das baterias", concluiu.

A publicação da portaria do primeiro leilão de baterias do país, na semana passada, foi recebida com otimismo pelo setor elétrico, que vê a iniciativa como um passo importante para ampliar a segurança do sistema e impulsionar o mercado de armazenamento de energia no Brasil. Ainda assim, a definição dos encargos aplicáveis aos sistemas de armazenamento permanece como um dos principais pontos de atenção, já que a forma de alocação dos custos pode influenciar diretamente a rentabilidade e a viabilidade econômica dos projetos.

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*A jornalista viajou a convite da EDP

 

Fonte: correiobraziliense

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