Para as Nações Unidas e organizações humanitárias que prestam auxílio à Venezuela, nos últimos anos, a tragédia dos terremotos da quarta-feira caiu como uma tempestade sobre terra arrasada. No cruzamento entre a instabilidade política crônica, pautada na disputa entre o governo bolivariano e a oposição direita, e as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, o ano começou com a incursão militar pela qual comandos de elite norte-americanos capturaram o presidente Nicolás Maduro. Como desdobramento, o presidente Donald Trump impôs um bloqueio naval para colocar sob controle de Washington as exportações de petróleo. Como resultado, o país enfrenta a calamidade e a emergência nacional sobrepostas a um panorama de estagnação econômica, com traços de penúria explícita para setores da população.
Terremotos na Venezuela: tragédia já é comparada ao devastador sismo de 1967
O Departamento de Estado dos EUA puxava ontem a fila das ofertas de ajuda de emergência ao país, com a promessa de liberar de imediato US$ 150 milhões. Como os governos de cerca de uma dezena de países, Washington ofereceu igualmente apoio nas operações de resgate e no atendimento a feridos e desabrigados. "Temos uma resposta de todo o governo", anunciou o secretário de Estado, Marco Rubio, em viagem ao Oriente Médio. "Ela será ampla, rápida e eficaz", acrescentou, com o empenho das Forças Armadas em "um importante papel logístico". No Brasil, o presidente Lula manifestou solidariedade ao governo de Caracas e orientou o Itamaraty a coordenar o envio de ajuda humanitária e equipes de apoio.
"Na Venezuela, não temos uma crise apenas, mas muitas, simultâneas, nos terrenos institucional, econômico e humano, cada uma potencializando as demais", diz um relatório recente do Escritório para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) da ONU. "Elas se originam e configuram em um contexto de ciclos constantes de conflito político, que faz erodir a estabilidade e a estrutura do Estado e causa um colapso profundo e extensivo, devastando as condições de vida da maioria da população", descreve o documento.
O diagnóstico traçado pelo OCHA indica que, hoje, mais de 18 milhões de venezuelanos sofrem de múltiplas carências no dia a dia. Pouco mais de 12 milhões — ou 43,5% da população — apresentam carências críticas. O país perdeu na última década 10 milhões de habitantes, que correspondem a 30% do contingente inicial. No início de 2026, de acordo com o relatório, 18 milhões estavam desprovidos de meios de subsistência. Desse total, 16,5 milhões apresentavam um quadro classificado como de "pobreza multidimensional". Como reflexo, 71% dos venezuelanos estão privados do acesso a uma dieta alimentar variada e suficiente, enquanto 23% vivem na condição extrema da fome absoluta.
Para este ano, a ONU solicitou US$ 632 milhões para assistência 5,5 milhões de venezuelanos em situação considerada mais críticas. No entanto, segundo o OCHA, até o fim de maio tinham sido efetivamente entregues apenas US$ 100 milhões, o que corresponde a pouco mais de 15% do total. Com esse montante, foi possível atender a 740 mil pessoas, das quais 62% são mulheres e meninas.
Ajuda a caminho
Além de EUA e Brasil, mais de uma dezena de países ofereceram apoio imediato para operações de socorro e resgate, atendimento a desabrigados e apoio à reconstrução da infraestrutura atingida pela calamidade. México e Cuba prometeram enviar equipes de socorro e pessoal médico. O Chile, palco recorrente de terremotos, mobilizou pessoal treinado para o resgate de sobreviventes e estuda a remessa de ajuda humanitária. Assim como os presidentes do Chile, José Antonio Kast, e da Argentina, Javier Milei, também Nayib Bukele, de El Salvador, afirmou que "à parte as diferenças políticas" com o governo venezuelano, o país enviará socorristas.
Enquanto o chefe de ajuda humanitária da ONU, Tom Fletcher, convocava "um esforço coletivo maciço" da comunidade internacional para apoiar o governo de Caracas, incluindo equipes do próprio Ocha, a Cruz Vermelha liberou de imediato US$ 2,5 milhões. China, União Europeia, Alemanha, Rússia, França, Itália, Portugal e Suíça se somaram às mensagens de condolências e solidariedade e aos compromissos de enviar socorristas, donativos e ajuda financeira à Venezuela.
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