16 de Julho de 2026

'Saí à caça dos homens que filmavam secretamente suas mulheres e compartilhavam os vídeos na internet'


Existem homens que filmam secretamente suas mulheres e namoradas e postam os vídeos na internet, para depois se vangloriarem das suas gravações.

Outros procuram mulheres desconhecidas. Um deles carrega uma câmera escondida na calçada, na esperança de filmar mulheres urinando.

Segundo a entidade britânica especializada em abusos domésticos Refuge, as denúncias de abusos cometidos com dispositivos tecnológicos aumentaram em 78% durante um ano.

Já a entidade galesa Welsh Women's Aid afirma ser difícil quantificar a escala do problema porque a maioria das vítimas nem sabe o que está acontecendo.

Um novo documentário da BBC revela uma sombria rede online de câmeras ocultas.

Em Hunting the Spycammers ("À caça das câmeras espiãs", em tradução literal), a apresentadora Jess Davies se uniu à jornalista investigativa Liam Connell, que já havia se infiltrado anteriormente em redes secretas na internet.

Este é um tema de interesse pessoal para Davies. Ela já foi fotografada nua em segredo enquanto estava dormindo e suas imagens foram compartilhadas em um grupo privado de WhatsApp.

A dupla teve acesso a um website de voyeurismo, que é o hábito ou fetiche de obter excitação sexual através da observação de pessoas nuas ou em atos sexuais. A endereço incluía links que levam seus usuários para grupos de bate-papo criptografados.

Com isso, elas descobriram pessoas trocando abertamente dicas sobre como fazer filmagens clandestinas e se vangloriando das suas gravações.

"É um ciclo sem fim de distribuição em massa de conteúdo não consensual de mulheres", explica Davies. "Parece que essas mulheres são caçadas como se fossem presas."

O documentário revelou pessoas escondendo câmeras em quartos, banheiros, vestiários e outros espaços privados.

"Pareceu uma violação tão grande, pensar que alguém que foi importante para mim pôde fazer isso comigo", ela conta. "Faz você se sentir inútil."

"Ver imagens similares de outras vítimas compartilhadas no fórum onde estávamos infiltradas trouxe de volta esse sentimento de traição e me fez questionar onde minha imagem terá ido parar."

"Será que ela chegou até um desses fóruns?"

Para Davies, alguns minimizam o impacto dessas ações como sendo inofensivas ou "simples brincadeiras".

"Já outros, como os voyeurs que mencionamos no programa, acham que, se a vítima nunca souber que foi filmada sem consentimento, não há problema. Isso realmente destaca como se minimiza o abuso de imagens e as ofensas na internet."

"Atrás de cada imagem ou vídeo, há uma pessoa que precisará viver com esta traição pelo resto da vida."

Davies destaca que "o que é realmente perturbador é a quantidade de perpetradores que filmam e compartilham conteúdo de pessoas (principalmente mulheres) que foram suas parceiras amadas".

"Isso realmente destaca como qualquer pessoa pode ser atingida por este mal."

Durante sua investigação, a jornalista galesa de 33 anos ficou conhecendo a variedade da tecnologia disponível de câmeras espiãs de baixo custo. Existem câmeras disfarçadas como objetos do dia a dia, como canetas, odorizadores de ambientes e tomadas.

Davies questionou o proprietário do fórum que as duas repórteres entraram infiltradas.

"Ele nos disse que verifica regularmente o conteúdo e retira material não consensual", ela conta.

"Mas, observando as evidências que encontramos, parecia haver pouca consideração pelos danos permanentes causados por aquele conteúdo para as vítimas."

"A impressão era que as pessoas filmadas sem consentimento foram totalmente ignoradas e desprezadas, como se o seu consentimento não fosse necessário."

"Na verdade, essa falta de consentimento era o que motivava muitos dos espiões", lamenta a apresentadora.

Davies espera que o documentário aumente a consciência sobre os danos causados pelas câmeras escondidas e reforça que os abusos de privacidade e consentimento "nunca devem ser normalizados".

No Reino Unido, filmar alguém não é necessariamente crime. Em espaços públicos, por exemplo, as pessoas normalmente podem filmar o que for visível para elas.

As gravações clandestinas passam a ser crime em uma série de casos, como o voyeurismo. Também é crime se a filmagem ocorrer em um local onde a pessoa que está sendo filmada espera ter privacidade ou se a gravação for feita para causar assédio ou inquietação.

No Brasil, o artigo 218C do código penal estabelece que oferecer, trocar, transmitir, vender distribuir, publicar ou divulgar, por qualquer meio — inclusive pela internet — fotografias, vídeos ou outro registro audiovisual que contenha pornografia ou nudez sem o consentimento da vítima, assim como cena ou apologia de estupro ou de estupro de vulnerável ou cena de sexo, é crime.

Quem recebe, por exemplo, uma foto de nudez no WhatsApp e compartilha — mesmo sem ter sido o primeiro a expor a imagem — também é considerado infrator.

Como pena, a lei prevê a reclusão de um a cinco anos, se o fato não constitui crime mais grave. Caso o criminoso seja um ex-namorado(a) e a divulgação tenha fim de vingança ou humilhação, essa pena pode aumentar de um a dois terços.

Já se as imagens foram compartilhadas por um tutor, padrasto, madrasta, irmão, tio, empregador ou qualquer outro título que a justiça considere "de autoridade" sobre a vítima, a pena pode aumentar 50%.

A Refuge pede maior regulamentação dos dispositivos de vigilância secretos e melhor treinamento da polícia para identificar e investigar seu uso.

"O que é especialmente preocupante é como esses dispositivos são baratos e acessíveis, permitindo que mais perpetradores os transformem em armas como forma de controle", declarou a gerente de políticas e assuntos públicos da Refuge, Bo Bottomley.

Mas a Refuge afirma que quase todas as sobreviventes atendidas pela entidade vivenciaram algum tipo de abuso possibilitado pela tecnologia. E houve aumento dos relatos de câmeras e microfones ocultos usados em residências.

Uma porta-voz da Welsh Women's Aid declarou que "esta forma de vigilância dissimulada pode destruir a sensação de privacidade e segurança das pessoas".

A entidade alerta que os danos vão muito além da gravação inicial. Imagens e vídeos compartilhados causam impactos devastadores à vida das sobreviventes e fazem muitas pessoas se sentirem inseguras, mesmo nas próprias casas.

"É particularmente difícil quantificar esta forma de abuso", segundo a organização. "Muitas sobreviventes não sabem o que aconteceu com elas."

A Refuge também pede às empresas de tecnologia ações rápidas para remover filmagens compartilhadas de câmeras espiãs e fornecer informações que levem a polícia a identificar os responsáveis.

O governo britânico afirma que "não tolera filmagens clandestinas, nem o assédio às vítimas".

A Estratégia sobre a Violência contra Mulheres e Meninas do governo britânico (VAWG, na sigla em inglês) inclui medidas para combater abusos na internet e os cometidos com o uso de dispositivos tecnológicos, explorando formas de aumentar a segurança dos aparelhos inteligentes e conectados à rede.

Um porta-voz do governo britânico declarou que "já é ilegal compartilhar imagens íntimas sem consentimento".

"Com a Lei de Crime e Policiamento, estamos indo além, transformando em crime captar imagens íntimas sem consentimento, incluindo por meio da instalação de equipamentos como câmeras que permitam às pessoas obter essas imagens."

"Estamos dedicando verbas para um centro nacional para reforçar a reação da polícia à violência contra mulheres e meninas", conclui a declaração.

Assista aqui, nos canais da BBC no YouTube, ao documentário Hunting the Spycammers (em inglês), que deu origem a esta reportagem.

Fonte: correiobraziliense

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